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2009/11/18 ANTÓNIA RODRIGUESNatural da Freguesia da Apresentação, em Aveiro, Antónia Rodrigues, também conhecida como Antónia de Aveiro, era filha de Simão Rodrigues, marinheiro, e de Leonor Dias. Seu pai dedicava-se à vida marítima e, ao que parece, fez algumas viagens à Terra Nova, quando da barra de Aveiro saía anualmente para aquelas paragens um grande número de embarcações para a pesca do bacalhau. A mãe tratava dos trabalhos domésticos, sempre pesados e sempre complicados, porque era grande a sua prole. Os trabalhos marítimos, as doenças e não poucas contrariedades acabrunharam demasiadamente Simão Rodrigues que, rodeado de filhos e de miséria, se viu obrigado a mandar esta filha para Lisboa, onde haveria de viver com uma irmã, cujo nome se ignora, mas que lá estava casada e em melhores circunstâncias. Pouco depois de haver chegado a Lisboa, manifestou um génio altivo e sempre impróprio da sua idade e da sua humilde posição. Repugnavam-lhe os trabalhos domésticos e recusava-se a executar os que eram próprios do seu sexo. Em virtude da sua índole livre e insubmissa, tanto a sua irmã como o cunhado, admoestavam-na, repreendiam-na, chegando mesmo a ameaçá-la e espancá-la. O procedimento daqueles cônjuges não abateu o génio irascível de Antónia Rodrigues, que fugia de casa com muita frequência. Decidiu então, em 1593, radicalizar a sua forma de vida, disfarçou-se de homem, adoptou o nome de António Rodrigues e conseguiu emprego na tripulação de um navio carregado de trigo, que zarpou para a possessão portuguesa de Mazagão, em Marrocos. Ela própria cortou os seus cabelos e, vestida com as roupas que havia comprado, apresentou-se ao capitão da caravela, pedindo-lhe que admitisse António Rodrigues, como simples grumete e sem remuneração, além do frugal sustento, que durante a viagem poderia receber como qualquer dos seus companheiros. O capitão estimava o grumete e, tanto na viagem como em terra, afirmava que António Rodrigues viria a ser um grande náutico, que muito havia de honrar a marinha portuguesa. Mas o grumete não quis voltar na mesma caravela e, desejoso de novas e variadas empresas, despediu-se do capitão, que manifestou por isso um íntimo desgosto. Sem incidente notável, entrou a caravela em Mazagão. O jovem grumete tratou de despedir-se do serviço marítimo. Nem todos os escritores estão de acordo quanto aos motivos que levaram o jovem grumete a tomar esta decisão. Ou o próprio capitão despediu o grumete, por já não precisar do serviço deste; ou este se deu por despedido, por querer entrar em aventuras, seguindo outro modo de vida. Posteriormente, dirigiu-se ao governador militar da praça e tratou de alistar-se, como simples soldado. O governador aceitou essa voluntária proposta, admirando a beleza e a elegância daquele jovem aveirense. Mazagão era uma praça do império de Marrocos, na Província de Duquela, distante dez quilómetros de Azamor. Pertenceu, desde 1502, aos portugueses, que logo a fortificaram e a fizeram ocupar militarmente. Em 1769, foi abandonada aos mouros, depois de lhe serem destruídas as fortalezas. Em 1562, fizeram ali os mouros diversas tentativas, para se apossarem da praça, mas num encontro foram vergonhosamente repelidos. António Rodrigues, agora como soldado, mostrava-se sempre intrépido nos combates e hábil no manejo das armas, pelo que chegou a ser incumbido do comando de algumas tropas em diversos recontros. Um dia soube que os mouros pretendiam fazer uma sortida de noite aos campos mais próximos e destruir as searas, que então estavam muito abundantes e quase maduras. Animou-se pelo ensejo de alcançar maior glória e pediu ao governador da praça que lhe entregasse um troço de tropas, para, sob o seu comando, fazer uma derrota completa nas hostes mauritanas. O governador acedeu ao pedido, esperando que António Rodrigues cumpriria com valor o que prometera por dedicação. Quando os mouros menos os esperavam, aparece o jovem militar com a sua tropa e com tanta valentia se houveram os portugueses, e tão bem comandados foram, que os invasores tiveram de fugir feridos e envergonhados. António Rodrigues entrou em Mazagão, ouvindo as aclamações de vitória e recebendo os maiores elogios. Por este e já por outros feitos foi elevado a oficial, sendo então integrado à cavalaria da praça. Pelas suas seguidas e brilhantes actuações militares, ficou conhecido como o terror dos mouros e ganhou a estima e o respeito de todos.
Não poucas damas se apaixonaram por António Rodrigues e ele facilmente deixava alimentar essas paixões, para assim poder mais facilmente encobrir a verdade do seu sexo. Entre aquelas damas, conta-se principalmente D. Beatriz de Meneses, filha de D. Diogo de Mendonça, um dos principais fidalgos, dos que então viviam em Mazagão. E tanto se apaixonou que adoeceu gravemente, chegando o pai, que muito a estimava, a recear que ela sucumbisse. D. Diogo entendeu-se com o governador da praça, insinuando-lhe que obrigasse António Rodrigues a desposar D. Beatriz. Chamado o jovem oficial à presença do governador e tendo ouvido a proposta do casamento, corou, tremeu e perdeu completamente a coragem. Depois de muita insistência por parte do governador, Antónia Rodrigues pediu para que não a castigassem; e, entre soluços, declarou que não era homem. Contou então toda a sua história e pediu perdão, por haver vivido com tal disfarce. O governador fez logo espalhar por toda a praça aquela notícia. Antónia Rodrigues vestiu os trajes do seu verdadeiro sexo e foi levada pelas ruas de Mazagão, ouvindo as aclamações do povo, que lhe dava o epíteto de cavaleira aveirense. Logo que se soube o verdadeiro sexo de Antónia Rodrigues, como era formosa e inteligente, não faltaram pretendentes que a desejassem para esposa. Entre eles escolheu Antónia um brioso oficial, cujo nome se ignora. O seu casamento foi celebrado com grandes festejos, assistindo ao acto as pessoas de posição mais elevada. Quando Antónia Rodrigues tinha trinta e cinco anos, voltou para Portugal, em companhia de seu marido e de um filho, que ainda era criança. Pouco depois ficou viúva. El-rei D. Filipe, II de Portugal e III de Espanha, achava-se então em Lisboa e desejou muito conhecê-la. Efectivamente, foi-lhe apresentada Antónia Rodrigues. O monarca muito admirou e bem recebeu a célebre heroína, que a recompensou pelos serviços prestados, conferindo-lhe diversas condecorações reais tanto a ela como a sua família. A partir de então a sua vida ficou envolta em mistério e pouco se sabe sobre seus dados familiares. Não se sabe onde nem em que data faleceu esta heroína aveirense, assim como nada se sabe a respeito do filho, nem se este deixou descendência. É possível que a mãe e o filho houvessem falecido em Madrid, onde então era a Corte.
(Pesquisa e adaptação a partir de vários sites da internet) 2009/11/8 FERNÃO DE MAGALHÃES E A VIAGEM DE CIRCUM-NAVEGAÇÃOFidalgo da pequena nobreza, Fernão de Magalhães nasceu no Norte de Portugal (em Trás-os-Montes, segundo alguns historiadores, no Porto, segundo outros). Veio jovem para Lisboa e embarcou aos 25 anos na armada do vice-rei D. Francisco de Almeida, a caminho da índia, em 1505. Percorreu os pontos principais do império do Oriente e participou em acontecimentos cruciais da Expansão, como a batalha naval de Diu, em 1509, e a conquista de Goa, em 1510. Na índia conheceu Francisco Serrão, futuro feitor nas ilhas Molucas, e começou a interessar-se pelos locais de origem das especiarias que atraíram os portugueses ao Oriente. De regresso a Lisboa, em 1513, partiu para Marrocos sob o comando do duque de Bragança e distinguiu-se na conquista de Azamor, a ponto de ser nomeado quadrilheiro-mor. Foi nesse cargo que caiu em desgraça: uma das suas funções era repartir o saque, e foi acusado junto do rei de o ter feito de forma pouco transparente. D. Manuel recusou-lhe por duas vezes o pedido de aumento da tença. À segunda recusa, Magalhães abandonou a corte e foi propor os seus serviços ao rei de Espanha.
Em 1517, Fernão de Magalhães chegou a Sevilha, onde conheceu dois poderosos elementos da corte espanhola: Juan de Aranda, feitor da Casa da Contratação, e o bispo de Burgos, membro do Conselho das índias. Magalhães convenceu-os de que era capaz de realizar o projecto em que trabalhava há anos, a descoberta do caminho para as ilhas produtoras de especiarias, as Molucas, navegando para ocidente, de maneira a atingi-las por mares que, ao abrigo do Tratado de Tordesilhas de 1494, não estivessem reservados a Portugal. Aranda e o bispo puseram Magalhães em contacto com o rei Carlos I de Espanha (que em 1519 se tornou também imperador Carlos V da Alemanha). Depois de uma negociação regateada acordaram nos termos da expedição. Magalhães cobrava um soldo de 50 mil maravedis e, ao comando de uma esquadra de cinco naus (Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago), com uma tripulação de 265 homens, ficava incumbido de tomar posse das Molucas para a coroa espanhola. A primeira circum-navegação da Terra começou em Setembro de 1519. De San Lúcar de Barrameda, os navios rumaram às Canárias e dali para o Brasil. Chegaram à baía do Rio de Janeiro em Dezembro e seguiram a costa para sul. Em Fevereiro de 1520 atingiram a foz do Rio da Prata e a 31 de Março estavam na baía de S. Julião. Magalhães decidiu passar ali o Inverno. Durante os meses seguintes esmagou uma revolta e perdeu duas naus, a Santiago naufragou e a San Antonio voltou a Espanha na sequência de um motim. Cinco meses depois a esquadra fez-se ao mar a 18 de Outubro, já reduzida a três navios. A 21, as naus internaram-se num estreito fustigado por violentas tempestades. Só descobriram a saída em meados de Novembro. Magalhães baptizou-o “Estreito de Todos os Santos", porque passara nele o dia de Todos-os-Santos. Ao saírem do estreito, os marinheiros tinham deixado o Atlântico e navegavam noutro oceano, a que chamaram Pacifico, por contraste com os temporais que antes tinham encontrado. Mais tarde, Carlos V determinou que a passagem do Atlântico para o Pacifico se chamasse Estreito de Magalhães. A travessia do Pacífico dizimou a tripulação, assolada pela fome, a sede e o escorbuto. Em Março de 1521, Magalhães chegou a um arquipélago a que chamou de S. Lázaro, mais tarde denominado das Filipinas, em honra de Filipe II. Aportou a Cebu, onde estabeleceu relações comerciais com o rei local. As coisas não correram tão bem com o rei da ilha vizinha de Mactan. Magalhães desembarcou ali com um grupo armado, disposto a obrigá-lo a submeter-se, e foi abatido pelos indígenas, em Abril de 1521. Escolhidos para chefiar a expedição, Duarte Barbosa e João Serrão quiseram vingar Magalhães. Barbosa foi morto, Serrão preso, e os sobreviventes fizeram-se ao largo. Juan Sebastian de Elcano tornou-se o novo comandante. A bordo da Victoria, Elcano completou a circum-navegação iniciada três anos antes por Magalhães: chegou a San Lúcar de Barrameda em Setembro de 1522. Dos 265 homens que tinham partido, voltaram 18.
O facto de Fernão de Magalhães ter concretizado a sua odisseia ao serviço de um rei espanhol não lhe retira o mérito. Pelo contrário. É admirável que tenha conseguido montar uma expedição desta envergadura num país que não era o dele. Segundo Gonçalves Neves, “Fernão de Magalhães representa um grupo de homens que saíram de Portugal e projectaram o seu saber para fora das fronteiras”. Nunca deixou de ser português. Foi graças a ele que Portugal esteve no início da globalização.
[in NS-J. Ferreira, RTP]
2009/10/17 FORTALEZA DE MAZAGÃO - MARROCOSDando continuidade à promessa de referenciar, aqui no meu espaço, alguns apontamentos sobre as 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo, cabe hoje a vez da Fortaleza de Mazagão em Marrocos. Mazagão foi uma possessão portuguesa em Marrocos, no norte da África, correspondendo à actual cidade de El Jadida, 90 km para sudoeste de Casablanca.
A reedificação da fortaleza foi encomendada aos maiores arquitectos italianos e espanhóis, numa altura em que se transitava da guerra com armas de arremesso para as armas de fogo. Assim se justifica a inclinação das muralhas, que deste modo repelem impacto das armas de fogo, assim como o alargamento das ameias, para a colocação das colubrinas, canhões e demais dispositivos. No ano de 1541, no reinado de João III de Portugal foram demolidas as estruturas defensivas existentes, que estavam ultrapassadas, sendo substituídas por outras em molde renascentista, segundo se pensa consoante o plano de Diogo de Torralva e possivelmente outros engenheiros de renome como João de Castilho. A prova da sua inexpugnabilidade foi a resistência a um forte cerco islâmico em 1562.
(in Wikipedia)
2009/10/6 RAINHA D. LEONOR, A FUNDADORA DAS MISERICÓRIDAS
Quando morreu, a 17 de Novembro de 1525, a rainha D. Leonor era uma das pessoas mais ricas de Portugal. Conheceu de perto quatro reis: o tio D. Afonso V, o primo e marido D. João II, o irmão D. Manuel I e o sobrinho D. João III. Foi responsável pela maior rede de assistência social de que há memória em Portugal - as misericórdias - ao criar, em 1498, a primeira delas, a Misericórdia de Lisboa. Por ironia da história, a mulher que fundou a mais importante obra de caridade do país foi acusada pelo historiador Anselmo Braamcamp Freire de ter cometido uma "feíssima falta de caridade": negou-se a acompanhar os últimos momentos do marido, que morreu aos 40 anos, com suspeitas de ter sido envenenado.
D. Leonor nasceu na mais alta nobreza de Portugal. Era filha do infante D. Fernando e de D. Brites (ou Beatriz), neta paterna do rei D. Duarte e neta materna do primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Muito cedo começou a acumular uma fortuna pessoal fabulosa. Aos 12 anos casou com o primo, o príncipe herdeiro D. João, mas só aos 15 foi assinado o Contrato matrimonial. Nessa altura, em Setembro de 1473, o irmão D. Diogo (uma vez que o pai já tinha morrido) deu-lhe de dote a vila e fortaleza de Lagos, avaliada em 10 mil cruzados de ouro, além das jóias e do enxoval que lhe foram dados pela mãe. O sogro e tio D. Afonso V atribuiu-lhe rendas em Lisboa, Sintra, Torres Vedras e Óbidos. Ainda na qualidade de princesa foi-lhe doada a vila de Sintra e, pouco depois de subir ao trono, em 1481, o marido doou-lhe, "sem no-lo ela pedir, nem outrem por ela", Aldeia Galega, Aldeia Gavinha, Alenquer, Alvaiázere, Óbidos, Torres Novas e Torres Vedras. Em 1484, a política nacional e a vida familiar de D. Leonor sofreram um choque: D. João II, que no ano anterior mandara executar por traição o duque de Bragança (primo de ambos), esmaga uma nova conspiração de nobres, assassinando pelas próprias mãos a golpes de punhal o seu cunhado D. Diogo, duque de Viseu. A rainha ficou destroçada com a morte do irmão. Durante muito tempo viveu no temor de que a vingança do marido fosse extensiva ao seu outro irmão, D. Manuel, duque de Beja. Este não se poupou a esforços para garantir as boas graças de D. João II e ofereceu à rainha 100 arráteis de açúcar da Madeira, por ano. A morte do filho D. Afonso - o único que chegou à idade adulta; tinha tido outro que morrera à nascença -, na sequência da queda de um cavalo, em Julho de 1491, foi outro abalo para D. Leonor. O príncipe herdeiro tinha casado no ano anterior com uma filha dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e era a esperança de uma Península Ibérica unificada sob um rei português. A mágoa pela perda do filho tornou-se mais dolorosa com a tentativa de D. João II de legitimar um bastardo, D. Jorge, e fazer dele o herdeiro da coroa. D. Leonor opôs-se, manobrou - e conseguiu manter o seu irmão D. Manuel na primeira linha da sucessão. A vida conjugal do par real não resistiu ao litígio. Quando D. João II, já doente, foi para o Algarve a conselho dos médicos, a rainha não o acompanhou. E quando o rei agonizou, em Alvor, em Outubro de 1495, recusou-se a ir ter com ele e a assistir à sua morte.
Viúva aos 37 anos, D. Leonor foi alvo de todas as atenções por parte do novo rei, D. Manuel I, ciente de que devia a coroa - e talvez até a vida - à irmã. Além de acrescentar com novas terras e rendas o seu património pessoal, mostrou o apreço em que a tinha ao nomeá-la regente durante a viagem que fez a Castela em 1498. Foi nesse ano e em nome do irmão que D. Leonor criou, com o apoio do seu confessor, frei Miguel Contreiras, e de D. Jorge da Costa, o cardeal Alpedrinha, a primeira Misericórdia portuguesa. Outras se seguiram em todo o reino, sempre de acordo com "compromissos" decalcados do original: a prática das "14 obras de Misericórdia", tanto espirituais como corporais. Morreu em 1525, com 67 anos, no palácio de Xabregas, e está sepultada no Convento da Madre de Deus, em Lisboa.
(J. Ferreira - in NS de 22-11-2008)
2009/9/30 D. MIGUEL, REI ABSOLUTO (ACLAMADO COMO SALVADOR DA PÁTRIA, ENCHEU AS PRISÕES E ALIMENTOU AS FORCAS)A chegada de D. Miguel a Lisboa, no dia 22 de Fevereiro de 1828, regressado de um exílio de quatro anos, foi uma festa que descambou numa orgia de violência. Do cais de Belém, onde desembarcou da fragata Pérgola, até ao palácio, ''foi um triunfo: um trovão de vivas, um desespero de gritos, um dilúvio de flores, bandeiras, colchas, foguetes em girândolas!", descreve Oliveira Martins. O infante, de 25 anos, garboso na farda enfeitada com penachos e galões, era para o povo "o arcanjo S. Miguel". Mas logo nesse dia, bandos de populares armados de cacetes começaram a percorrer as ruas à procura de liberais para os provocar e agredir. Berravam morras aos "malhados" (como chamavam aos defensores do regime constitucional) e à "canalha pedreiral" (os pedreiros-livres, isto é, a Maçonaria). Os seus apoiantes cantavam: "O rei chegou, o rei chegou! E em Belém desembarcou; Na barraca [palácio das Cortes] não entrou E o papel [Carta Constitucional] não assinou! C'o papel o cu limpou!" Era só o princípio. Nos anos que se seguiram, Portugal foi palco de uma repressão feroz contra todos aqueles que os caceteiros miguelistas acusavam de partidários do liberalismo instaurado pela revolução de 1820. O infante partira para o Brasil com a família quando tinha apenas cinco anos. Os tumultos de Fevereiro de 1821, no Rio de Janeiro - em que viu o pai, D. João VI, ser obrigado a jurar a sua adesão à revolução portuguesa -, traumatizaram D. Miguel, então com 18 anos. Enquanto o irmão mais velho, D. Pedro, ficou no Brasil e abraçou a causa liberal, D. Miguel voltou com os pais para Lisboa e tornou-se o chefe do partido absolutista. Em 1824 foi desterrado para Viena de Áustria, depois do fracasso do golpe da Abrilada, que tentara derrubar o governo de D. João VI. O rei morreu dois anos depois, sucedendo-lhe D. Pedro, imperador do Brasil. Conhecedor dos "anticorpos" que contra ele existiam em Portugal por ter sido o principal responsável pela independência brasileira, D. Pedro IV outorgou a Carta Constitucional e de seguida abdicou a favor da filha, D. Maria II, uma menina de oito anos. Numa tentativa de reconciliar os portugueses divididos entre liberais e absolutistas, perdoou "os desatinos do mano Miguel", nomeou-o lugar-tenente e combinou o seu casamento com D. Maria II. Em troca, D. Miguel jurou aderir ao regime constitucional. Entusiasmado com a recepção apoteótica em Lisboa, D. Miguel, sempre instigado pela mãe, D. Carlota Joaquina, renegou o juramento que fizera da Carta Constitucional e, em Julho de 1828, foi aclamado rei absoluto pelas Cortes reunidas à maneira da Idade Média: clero, nobreza e povo. As represálias subiram de tom. O pretexto foi a conspiração dos Divodignos - uma associação de estudantes revolucionários da Universidade de Coimbra -, responsável pelo assassínio de professores miguelistas. As forcas do Cais do Sodré, em Lisboa, passaram a fazer parte do imaginário nacional. Entre 1828 e 1834 houve, segundo Oliveira Martins, 115 enforcamentos, a esmagadora maioria por motivos políticos. Nas prisões, sobretudo do Limoeiro, em Lisboa, e de S. Julião da Barra, em Oeiras, apodreceram dezenas de milhares de presos políticos (Oliveira Martins fala em 26 700), entre eles Borges Carneiro, um dos líderes da revolução de 1820, e o antigo primeiro-ministro conde de Subserra, absolutista moderado.
A violência do regime levou à emigração, por razões políticas, de muitos milhares de portugueses (Oliveira Martins conta 13 700). Em 1831, D. Pedro abdicou da coroa do Brasil, decidido a fazer da filha rainha constitucional de Portugal. Formou um exército composto por emigrados portugueses e por mercenários recrutados em França e Inglaterra e iniciou a Guerra Civil (1832-1834). Derrotado, D. Miguel assinou a Convenção de Évora Monte e partiu para o exílio, a 27 de Maio de 1834. Desta vez não regressou: morreu em Brombach, na Alemanha, com 64 anos.
(José Ferreira in NS)
2009/9/11 O MASSACRE DOS TÁVORAS - Uma história de sexo, sangue e luta pelo poder que horrorizou Portugal e o Mundo
2009/7/18 D. PEDRO IV E O REGRESSO A PORTUGAL
Desde 1828 que Portugal estava sujeito às tropelias de D. Miguel, rei absoluto. Havia forcas no Cais do Sodré, os presos políticos apodreciam no Forte de S. Julião da Barra, sermões incendiários do padre José Agostinho de Macedo e de frei Fortunato de São Boaventura atiçavam os esbirros contra os liberais - os "malhados".
D. PEDRO tinha abdicado da coroa portuguesa a favor da filha, D. Maria li, em 1826, mal soube da morte do pai, D. João VI. Ao mesmo tempo, outorgara a Carta Constitucional e, para reconciliar os portugueses, divididos desde a Revolução de 1820 entre liberais e absolutistas, propôs ao seu irmão mais novo, D. Miguel, chefe da facção absolutista, o casamento com D. Maria II. D. Miguel, exilado na Áustria, aceitou. No entanto, mal regressou a Portugal, em 1828, desistiu do casamento com a sobrinha e fez-se aclamar rei absoluto. Em 1831, D. Pedro deixou a coroa imperial brasileira ao filho D. Pedro II e partiu para a Europa para fazer valer os direitos de D. Maria. Proclamou-se regente de Portugal - e ganhou o cognome de Rei-Soldado. Financiado pelo espanhol Mendizábal, recrutou mercenários em Inglaterra e França e preparou uma expedição aos Açores, em 1832. Estabeleceu o governo constitucional na ilha Terceira, de onde Mouzinho da Silveira reformou a administração pública, nacionalizou os bens da coroa e da Igreja: em decretos sucessivos lançou os alicerces do Portugal moderno. A seguir, com 7500 homens - entre voluntários emigrados e mercenários estrangeiros -, desembarcou na praia de Pampelido, perto do Mindelo (daí terem passado à história como os "bravos do Mindelo") e ocupou o Porto, onde aguentou o cerco das forças miguelistas durante mais de um ano. Em Junho de 1833, a esquadra liberal, comandada pelo inglês Charles Napier, largou da foz do Douro rumo ao Algarve. Depois de desembarcar os generais Terceira e Palmela, Napier derrotou a armada miguelista ao largo do cabo de S. Vicente. O duque da Terceira subiu pelo Alentejo e, a 24 de Julho de 1833, entrou triunfante em Lisboa. No Porto, a 25 de Julho, Saldanha repeliu o último assalto absolutista. D. Miguel iniciou uma longa retirada: primeiro para Coimbra, dai para Leiria, depois para Santarém. A guerra civil durou ainda mais oito meses. As vitórias de Saldanha e Terceira, em Almoster e Asseiceira, deram o golpe de misericórdia no debilitado exército absolutista. D. Miguel assinou a Convenção de Évora Monte e partiu para o exílio. Mas os vencedores não se entenderam. D. Pedro não continha os tiques autoritários. Numa noite de Verão, no Teatro de S. Carlos, em Lisboa, o regente foi pateado aos gritos de "abaixo o ditador!" Foi de mais para o ex-rei e ex-imperador. Aos 35 anos, minado pela tuberculose, parecia um velho. A 24 de Setembro de 1834, morreu no mesmo quarto onde nascera, no Palácio de Queluz.
D. Pedro IV nasceu no Palácio de Queluz a 12 de Outubro de 1798, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon, tendo falecido no mesmo palácio. Foi sepultado no Panteão de S. Vicente de Fora, sendo transladado para o Brasil em 1972. Foi o 1.º imperador do Brasil, de 1822 a 1831. Casou em 1817 com D. Maria Leopoldina Josefa Carolina, que nasceu a 22 de Janeiro de 1797, e faleceu no Rio de Janeiro, a 11 de Dezembro de 1826, filha de Francisco I e de D. Maria Teresa, últimos imperadores do Sacro Império Romano Germânico , e primeiros da Áustria.
2009/7/2 FORTALEZA DE DIU - INDIAEsta é mais uma das 7 maravilhas portuguesas espalhadas pelo mundo.
A fortaleza de Diu fica localizada na ilha de Diu, ao largo da costa do estado de Guzerate, na Índia. Situada no extremo sul da península de Katiavar, à entrada do golfo de Cambaia, é considerada pelos estudiosos de arquitectura militar como a mais importante e bem fortificada estrutura erguida no Estado Português da Índia. Pela sua importância estratégica, foi alvo da cobiça e resistiu a inúmeros cercos e ataques de árabes, turcos, indianos e às diversas tentativas holandesas para dela se apoderarem em finais do século XVII. A partir do século XVIII, com a crescente supremacia de outras nações do ocidente e a consequente decadência do Islão, a importância de Diu entrou em declínio.
As obras foram iniciadas pelo sétimo governador do Estado Português na Índia, D. Nuno da Cunha, em 20 de Novembro de 1535, estando concluída no ano seguinte.
Uma das primeira manifestações do estilo renascentista nas praças do Oriente português, destaca-se pela imponente muralha pelo lado de terra que ascendia a 250 metros de comprimento, reforçada por baluartes, apoiada por numerosos fortes e fortins espalhados pelos 40 quilómetros quadrados da ilha.
A defesa era composta, pelo lado de terra por uma primeira linha, sobre o fosso exterior, amparada pelo Baluarte de São Domingos (defendendo o Portão de Armas), pelo Baluarte de São Nicolau e pelo Baluarte de São Filipe. A segunda linha, interna, era integrada, pelo lado de terra, pela Torre de Menagem e pelos Baluarte Cavaleiro e Baluarte de São Tiago. Pelo lado do mar, pelos Baluarte Chato (Sueste), Baluarte de Santa Luzia (Este) e pelo lado do canal, pela Couraça, Baluarte de Santa Teresa e Baluarte de São Jorge.
Diu transformou-se num importante entreposto comercial na época da chegada dos portugueses à costa da Índia. Já em 1513, Afonso de Albuquerque, tentou estabelecer ali uma feitoria, sem sucesso. Algumas tentativas de conquista empreendidas por Diogo Lopes de Sequeira e por D. Nuno da Cunha, também não tiveram êxito.
Martim Afonso de Sousa iniciou negociações com o sultão Bahadur Xá, em 1534, vindo a obtê-la em troca de ajuda militar portuguesa prestada contra o Grão-Mogol de Déli, que o expulsara de seus domínios.
Livre da ameaça e arrependido da sua generosidade, Bahadur Xá pretendeu reaver Diu, matando o governador da praça, ao mesmo tempo que chamava em auxílio uma frota turca. Ao tomar conhecimento da traição, mandou prender Bahadur, que acabou por ser morto numa refrega. Seguiu-se um período de guerra entre os portugueses e a gente do Guzerate. O novo sultão celebrou um acordo com a Sublime Porta, e, em 1538, forças Guzerates, sob o comando de Coja Sofar, senhor de Cambaia, com o reforço de uma armada egípcia do Paxá Al Khadim, impôs cerco a Diu, defendida por tropas portuguesas sob o comando de António Silveira. Essas forças foram dispersadas com o auxílio de Martim Afonso de Sousa. Com a sua estrutura reparada e reforçada, foi duramente castigada em novo cerco, imposto por um novo exército Guzarate, sob o comando do mesmo Coja Sofar, no Verão de 1546. Durante cinco meses os seus defensores resistiram, sob o comando de D. João da Silveira, recebendo alguns reforços e suprimentos pelo mar até que, em 11 de Novembro, um reforço naval, sob o comando de D. João de Castro, posteriormente recompensado com o cargo de quarto Vice-rei da Índia, decidiu a vitória em favor dos Portugueses. Neste cerco, pereceram Coja Sofar e um filho de D. João de Castro, D. Fernando.
D. João de Castro, necessitando reconstruir as muralhas da fortaleza, arruinadas pelo cerco (segundo a sua própria informação, a fortaleza encontrava-se tão gravemente destruída que nela não havia de aproveitável um só palmo de parede), solicitou à Câmara Municipal de Goa um empréstimo de 20 mil pardaus, dando em garantia a própria barba. A Câmara liberou o empréstimo, rejeitando, no entanto, o precioso penhor. As obras de reconstrução foram conduzidas pelo mestre de pedraria Francisco Pires que, tendo saído do reino para a Índia em 1546, de passagem trouxera ainda o risco para a Fortaleza de São Sebastião na ilha de Moçambique. A partir do século XVIII, o progresso levado pelos ingleses às cidades vizinhas do Katiavar, retiraram importância econômica a Diu, cuja importância estratégica encerrou-se ao final do século XIX com a abertura do Canal do Suez, assim como aconteceu com as costas de Oman e do Gujarate. Finalmente, sob o ataque das forças da União Indiana, em 19 de Dezembro de 1961, sem possibilidade de receber reforços, após esgotada a sua munição, caiu. Foi diante de seus muros que se desenrolou o episódio da lancha Veja, que sucumbiu ante os ataques de duas esquadrilhas de aviões a jacto que actuaram em apoio à invasão.
2009/6/16 CONVENTO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS DA PENITÊNCIA – OURO PRETO - BRASILNo dia 10 de Junho foram eleitas as 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo. Estas foram as vencedoras entre as 27 seleccionadas. Mas todas são símbolos extraordinários da presença e da influência dos portugueses no mundo. Todas elas fazem parte da história de Portugal e falam: “Isso já foi Portugal”. Porque este evento me tocou de forma especial, decidi prestar a minha insignificante homenagem a estas maravilhas, publicando aqui um resumo histórico sobre cada uma delas. Hoje começo por uma que me tocou de forma muito especial, e mexeu com os meus sentimentos, transportando o meu pensamento para além mar, trazendo à minha memória recordações muito agradáveis. Refiro-me ao Convento de São Francisco de Assis da Penitência em Ouro Preto.
A Igreja de São Francisco de Assis, localizada em Ouro Preto, Minas Gerais, é considerada uma das obras-primas do barroco brasileiro, além de ser uma das maiores realizações do Aleijadinho (1730 - 1814). A Igreja é uma das raras construções em que o projecto, a obra escultórica e a talha são de autoria de um mesmo artista, o que confere grande unidade e harmonia ao conjunto. Não há descompassos entre arquitectura e ornamentação. Mesmo a pintura e o douramento - do forro, retábulos e laterais -, sob a responsabilidade de Manoel da Costa Athaide (1762 - 1830), encontram-se em perfeita sintonia com o conjunto. A encomenda do risco para a igreja, feita ao então jovem escultor, arquitecto e entalhador, se efectiva em 1766, logo após a morte do pai do artista, importante arquitecto e mestre de obras local. O Aleijadinho altera o plano primeiro da igreja, arredondando-lhe as torres e elaborando novo frontispício e ornamentos para as fachadas, que se enriquecem em graça e detalhes pela mestria com que maneja a arte do cinzel. Os modelos barrocos europeus se aclimatam e se desenvolvem no Brasil ao longo do século XVIII, resvalando em soluções rococó - mais leves, simples e suaves - nas vilas e cidades de Minas Gerais a partir de 1760. Aí, as construções perdem suas feições monumentais, e os templos adquirem toques intimistas e dimensões reduzidas. A decoração em pedra-sabão constitui outro traço peculiar e original do barroco mineiro que se expande por diversos núcleos de mineração da colónia. A vida urbana de Vila Rica (elevada à categoria de cidade em 1714 e baptizada Ouro Preto, em 1897) abriga uma população heterogénea, um intenso comércio e diversos tipos de artes: música, literatura (os integrantes da Arcádia), arquitectura, pintura e escultura. A predominância de mulatos nas artes plásticas mineiras, nesse período, é explicada em função da relativa liberdade desse segmento na obtenção de serviços que não podem ser feitos nem pelos escravos, nem pelos brancos, que não realizam trabalhos manuais. É nesse ambiente urbano que surgem novos profissionais, como o Aleijadinho, cujo aprendizado se dá pela prática no canteiro de obras, na elaboração de riscos, na escultura em pedra-sabão e na talha de altares. O contacto com artistas mais experientes é outro factor decisivo na formação do artista: além de seu pai, Manuel Francisco Lisboa, ele se beneficia das relações com João Gomes Batista (desenhista e medalhista), e com José Coelho de Noronha e Francisco Xavier de Britto (entalhadores). O conjunto da Igreja de São Francisco de Assis, com suas proporções reduzidas, arquitectura e decoração, constitui um exemplo bem acabado dos contornos que o rococó europeu adquire entre nós, podendo ser descrito como uma sequência integrada de três volumes - nave, capela-mor e sacristia - de proporções harmónicas e ornamentação sóbria. A decoração, com anjos, elementos vegetais, fitas, guirlandas e entrelaçados em madeira e pedra-sabão, confere movimento e dinamismo à obra. A planta da igreja mostra um espaço modelado por superfícies convexas, em que as torres cilíndricas, recuadas, conectam de modo subtil o frontispício e o corpo da igreja. A elevação principal é outro elemento a dotar de leveza o conjunto, que parece menor do que efectivamente é. A solução de recuar as torres - que são deslocadas do plano da fachada a partir de uma espécie de movimento em rotação - dá destaque ao frontispício. Na composição deste, a portada ocupa lugar central, dominando a superfície entre as duas janelas do coro. O medalhão, no alto, permite aferir a mão precisa do entalhador. No interior da igreja, a luz difusa é filtrada pelas janelas laterais. As quatro janelas do coro, por sua vez, jogam a luz em direcção ao teto da nave central, pintado por Athaide. Os púlpitos são instalados no arco-cruzeiro, na passagem da nave para a capela, o que promove uma perfeita articulação dos espaços. Em pedra-sabão, os púlpitos dialogam com as talhas. A talha do retábulo, por exemplo, se articula às existentes nos quatro cantos do forro, com medalhões ao centro, em que figuram os santos da ordem em semi-relevo. No retábulo e em suas duas colunas laterais, o ouro sobre fundo palha ameniza os contrastes. A Santíssima Trindade do retábulo, com a virgem ao centro, mostra-se uma peça de grande valor escultórico. Nela destacam-se a ênfase nas expressões faciais das figuras e os efeitos dos olhos, característicos das esculturas do Aleijadinho. O motivo da lua crescente com as pontas voltadas para baixo, que arremata a peça, repete-se no forro de Athaide, acentuando o diálogo entre escultura e pintura. As portadas, púlpitos e lavatórios da Igreja de São Francisco de Assis são consideradas obras maiores da escultura em pedra sabão. Germain Bazin, referindo-se ao retábulo e ao conjunto da capela-mor da igreja, declara ser surpreendente que "a realização mais perfeita desse rococó português aconteça no Brasil, e não na metrópole, e que seja devida a um mestiço". Vale lembrar que essa significativa presença mulata nas artes do período é lida por diversos intérpretes - Mário de Andrade (1893 - 1945), Gilberto Freyre (1900 - 1987) e Roger Bastide (1898 - 1974), por exemplo - como o factor determinante da particularidade do barroco em Minas Gerais.
2009/5/25 D. CATARINA DE BRAGANÇA E AS INFIDELIDADES DO MARIDOO casamento entre a princesa D. Catarina de Bragança (1638-1705), filha de D.João IV, e o rei Carlos II de Inglaterra foi uma vitória para a diplomacia portuguesa na Guerra da Restauração contra a Espanha. A cerimónia realizada em Portsmouth, a 30 de Maio de, contribuiu para o reconhecimento pelas potências europeias da independência reconquistada em 1640. Uma consequência imediata foi a chegada a Portugal de 2700 soldados ingleses bem preparados, que foram guarnecer o Alentejo, onde a guerra era mais acesa. Apesar do brilho da boda, o enlace não foi feliz. A princesa tinha 23 anos e ia partir para um casamento destinado a durar outros 23. Saiu de Lisboa com grande pompa, a bordo do navio Royal Charles, comandado pelo conde de Sandwich (o inventor da sanduiche), escoltada por uma frota de 20 barcos de guerra. Mas logo à chegada a Inglaterra, a 25 de Maio, houve um percalço: o noivo não estava no porto para a receber. Isso e uma infecção que D. Catarina apanhou na garganta atrasaram a cerimónia quase uma semana. A entrada solene em Londres só ocorreu a 2 de Setembro.
Pouco depois do casamento, já Carlos " voltava a exibir em público a sua amante principal - Barbara Villiers, conhecida por Lady Palmer, mais tarde duquesa de Cleveland, mãe de cinco dos 12 filhos bastardos do rei. D. Catarina foi persuadida pelos seus conselheiros a aceitá-la como dama de companhia. Ao longo dos anos seguintes a rainha sofreu vexames e humilhações, sobretudo devido à influência viperina de outra concubina real, a francesa Louise de Keroualle, duquesa de Portsmouth. Quando o convívio com as duas favoritas ameaçava tomar-se entediante, Carlos II buscava outras, por desfastio. Foi o caso de Catherine Pegge, de Eliizabeth Killigrew e das actrizes Moll Davies e Nell Gwyn. Paciente, D. Catarina aceitava a infidelidade do rei - que, à falta de filho legítimo, ia semeando bastardos. A esterilidade da rainha serviu como arma de arremesso aos políticos protestantes. O casamento com uma católica só fora aceite graças à generosidade do dote. Com D. Catarina, a Inglaterra recebera dois milhões de cruzados em dinheiro, a praça-forte de Tânger, em Marrocos, e a cidade e feitoria de Bombaim, na índia. Mas, com o passar dos anos e a agudização do confronto entre whigs (protestantes radicais) e tories (partidários do poder real), a rainha foi alvo de acusações que a apontavam como agente de Roma e impulsionadora de conspirações "papistas" contra as liberdades parlamentares. Em abono de Carlos II, diga-se que sempre protegeu a mulher das intrigas políticas.
No campo pessoal, o rei elogiava a beleza dos olhos de Catarina - enquanto autores ingleses, porventura contaminados pelo preconceito, deixaram um retrato pouco simpático da rainha: feia, baixinha, roliça, com os dentes salientes. Do que não restam dúvidas é do papel de D. Catarina na introdução do chá na corte britânica, na alteração da baixela - deve-se-lhe a substituição dos pratos de metal pela loiça de porcelana - e o seu interesse pela música. No leito de morte, em 1685, Carlos II declarou a sua conversão ao catolicismo, provavelmente por influência da mulher. Sucedeu-lhe o irmão Jaime II, também católico - uma afronta para os ingleses, que preferiram trocá-lo por um holandês protestante, Guilherme de Orange. D. Catarina viveu em sobressalto a agitação que dominou o reinado do cunhado e culminou na "Gloriosa Revolução" de 1689. Sempre suspeita aos olhos dos protestantes vencedores, só lhe foi permitido regressar a Portugal em 1692, 30 anos depois de ter partido. Em Lisboa, recolheu-se no palácio da Bemposta e, no fim da vida, teve ainda um papel político importante. Apoiou a assinatura do Tratado de Methuen, em 1703, e assumiu a regência do reino por duas vezes, em 1704 e 1705, na ausência do irmão D. Pedro II. Morreu com 67 anos, no último dia de 1705.
[NS_J.Ferreira]
2009/5/8 VASCO DA GAMA, Percursor da GlobalizaçãoVASCO DA GAMA, filho do alcaide-mor de Sines, foi nomeado capitão-mor da expedição à Índia por D. João II. Após a sua morte, a nomeação foi confirmada por D. Manuel I. Vasco da Gama tinha 28 anos quando partiu do Restelo, em 8 de Julho de 1497. A armada era composta por um navio de transporte, pela caravela Bérrio e pelas naus S. Rafael, comandada por Paulo da Gama (irmão mais velho de Vasco da Gama), e S. Gabriel, sob o comando do próprio capitão-mor, tendo como piloto Pêro de Alenquer. A tripulação contava entre 150 e 170 homens. Só um terço havia de regressar. Depois de uma primeira paragem na ilha de Santiago, em Cabo Verde, a frota dirigiu-se à Serra Leoa e a partir daí descreveu um longo arco para oeste para contornar os ventos contrários, até apanhar outros, já no hemisfério sul, que a levaram de novo à costa africana. Só a 22 de Novembro, e após duas tentativas, dobraram o Cabo da Boa Esperança e fundearam na angra de S. Brás. Continuando para norte, ao longo da costa oriental de África, chegaram em fins de Janeiro de 1498 ao rio que Vasco da Gama baptizou de Bons Sinais (Quelimane), por ali ter obtido informações sobre a presença de árabes. Foi nesse local que se verificaram os primeiros casos de escorbuto. Ao chegarem à ilha de Moçambique, no princípio de Março, os portugueses testemunharam o negócio daquilo que procuravam no Oriente: ouro, prata e, sobretudo, especiarias, como a pimenta e o cravo. Em Abril desembarcaram em Mombaça (actual Quénia), mas sentiram-se em perigo quando os locais descobriram que os visitantes eram cristãos. Só em Melinde, mais para norte, foram bem recebidos e contrataram um piloto árabe que os conduziu ao destino. Em Calecute (no actual estado indiano de Kerala), ao verem estátuas de deusas hindus nos templos, os portugueses julgaram ter estabelecido contacto com cristãos veneradores da Virgem Maria. Em breve se desenganaram. A tentativa de estabelecer relações diplomáticas com o entreposto comercial da costa do Malabar falhou devido à hostilidade do samorim (soberano local), estimulada pelos mercadores muçulmanos - mas não só. Habituados a lidar com chefes tribais da costa africana que se deixavam deslumbrar por contas de vidro e quinquilharia, os portugueses cometeram a gaffe de oferecer a um potentado habituado ao luxo asiático presentes que ele não podia deixar de considerar simplesmente insultuosos. Ao fim de três meses de negociações infrutíferas, a 29 de Agosto de 1498, os portugueses largaram de Calecute. A viagem de regresso foi longa e tormentosa, com grande parte da tripulação dizimada pelo escorbuto. Vasco da Gama só regressou a Lisboa em finais de Agosto ou início de Setembro de 1499, a bordo da S. Gabriel. A boa nova da descoberta da rota para a Índia fora trazida em Julho, pela caravela Bérrio. O rei D. Manuel mostrou-se grato. Deu a Vasco da Gama e seus descendentes o titulo de Dom e o cargo de almirante da índia; atribuiu-lhe uma tença de 300 mil cruzados por ano; autorizou-o a trazer da Índia mercadorias no valor de 200 cruzados por ano e a negociá-las no reino sem outros encargos além da vintena para a Ordem de Cristo; e prometeu doar-lhe a vila de Sines - o que nunca cumpriu. Mais tarde, acabou por conceder-lhe a Vidigueira, com o titulo de conde. Voltaria mais duas vezes à Índia - em 1502 e em 1524 -, de que foi governador e segundo vice-rei para lutar contra os abusos existentes que punham em causa a presença portuguesa na região. Vasco da Gama começou a actuar rigidamente e conseguiu impor a ordem, mas veio a falecer em Dezembro desse mesmo ano em Cochim, sendo os seus restos mortais trazidos para Portugal, mais concretamente para a Igreja de um convento carmelita, conhecido actualmente como Quinta do Carmo (hoje propriedade privada).
Vasco da Gama morreu em Cochim, como vice-rei, durante a sua terceira viagem à índia, na noite de Natal de 1524. A presença de seus restos mortais na vila alentejana da Vidigueira prende-se ao facto de o soberano lhe ter atribuído o título de conde da Vidigueira de juro e herdade (ou seja a si e aos seus descendentes) em 1519. Aqui estiveram até 1880, data em que ocorreu a trasladação para o Mosteiro dos Jerónimos ficando ao lado do túmulo de Luís Vaz de Camões. Há quem defenda, porém que, os ossos de Vasco da Gama ainda se encontram naquela vila alentejana. Como testemunho da trasladação das ossadas, em frente à estátua do navegador em Vidigueira, existe a antiga Escola Primária Vasco da Gama (cuja construção serviu de moeda de troca para obter permissão para efectuar a trasladação à época), onde se encontra instalado o Museu Municipal de Vidigueira.
2009/4/25 DEU-LA-DEU MARTINS, HEROÍNA DE MONÇÃOLendária heroína portuguesa da vila de Monção, que no séc.XIV ficou para sempre ligada à sua história, pois quando Monçao foi cercada pelos soldados de Castela, com sua bravura e inteligência fez com que o inimigo levantasse o cerco às muralhas do castelo. Era casada com o alcaide-mor de Monção, D. Vasco Rodrigues de Abreu, comandante da praça de Monção, quando Portugal se viu, como foi comum durante toda a Idade Média, em mais uma refrega com Castela. Em 1368, o conflito opunha Fernando de Portugal a Henrique de Trastâmara ou Enrique II de Castilla. Monção estava cercada por um poderoso exército castelhano, comandado por Pedro Rodrigues Sarmento, e depois de um longo cerco às muralhas de Monção, a fome reinava no interior da fortaleza, enquanto o sitiante parecia disposto a esperar e obter a rendição dos lusos pela fome e o medo. Como D. Vasco estava ausente, coube à esposa a defesa do castelo. Em gesto desesperado e estratégico, ela mandou fazer alguns pães com a pouca farinha que ainda restava, pegou neles, subiu à muralha e atirou-os aos inimigos, dizendo-lhes que as provisões abundavam na cidade e que, dada a duração do cerco, eles poderiam precisar de alimento, procurando, assim, iludir os castelhanos. O estratagema deu certo, pois os galegos, também cheios de fome, convencidos de que dentro das muralhas de Monção havia fartura e que resistiriam por muito tempo, abandonaram o cerco e seu nome virou lenda e sinónimo de mulher corajosa. Não há registos sobre o local exacto de seu nascimento. Uma imagem de mulher, segurando um pão em cada mão do alto de uma torre, figura no brasão de Monção com a legenda: Deus a deu - Deus o há dado. Existe igualmente num cenotáfio da heroína, construído pelo seu 3º neto, uma torre no cimo da qual se encontra a figura da nobre mulher segurando um pão. Estes factos vêm confirmar a veracidade do gesto heróico de Deu-la-Deu Martins, símbolo da coragem que perdurou para além da memória da história. Na capela-mor, ao lado da epístola, está colocado um túmulo com os restos mortais da heroína. Este feito ficou para sempre na memória dos portugueses e deu origem ao costume de os vereadores do município se dirigirem ao túmulo de Deu-la-Deu, quando tomavam posse dos seus cargos, prestando-lhe homenagem.
2009/4/16 D. AFONSO IV E A BATALHA DO SALADOQuando subiu ao trono, em 1325, D. Afonso IV preferia passar o tempo em caçadas. Um dos seus conselheiros teve a coragem de lhe dizer na cara que era preciso deixar-se de distracções e cumprir os deveres de rei, senão... "Senão o quê?", perguntou-lhe D. Afonso. "Senão, não", respondeu o outro. O rei percebeu. Entrou em guerras com o meio-irmão Afonso Sanches, com o genro castelhano, com os mouros e até com o filho D. Pedro, depois de mandar matar Inês de Castro - mas sempre em nome da razão de Estado e para defender os interesses do reino. Pela valentia de que deu provas na batalha do Salado passou à história como "o Bravo".
É precisamente sobre o episódio da batalha do Salado que nos vamos debruçar a seguir.
Ao fim de seis séculos de ocupação, a presença islâmica na Península Ibérica estava em decadência. Foi então que os mouros de Granada, aliados aos de Marrocos, fizeram uma última demonstração de força na Andaluzia, e em 1340 conseguiram abalar o reino de Castela. Portugal, onde a Reconquista Cristã fora concluída quase cem anos antes, andava em guerra com os castelhanos mas no momento de perigo D. Afonso IV correu em auxt1io do vizinho. A participação portuguesa foi fundamental para a vitória na batalha do Salado, a 30 de Outubro de 1340, que pôs fim à última ameaça dos muçulmanos em Espanha.
Na sequência da guerra que o rei de Granada (Yusef Abdul Hagiag) vinha a travar contra os cristãos desde o ano de 1339, o mesmo pediu ajuda ao rei de Fez (Abul Hassan) em 1340. O marroquino atravessou o estreito de Gibraltar com uma frota de mais de 100 navios e destruiu a armada castelhana. Sem marinha para impedir o transporte de guerreiros mouros do Norte de África para a Península, o rei Afonso XI de Castela procurou o auxílio dos vizinhos do Ocidente. A tarefa afigurava-se difícil: desde 1336 que Portugal e Castela andavam em guerra. O casamento de Afonso XI com D. Maria, filha de D. Afonso IV de Portugal, em 1328, devia ter selado uma aliança entre os dois países. No entanto, a relação, mantida publicamente, de Afonso XI com a amante Leonor de Guzman humilhou a princesa portuguesa, que recolheu a um convento. Para vingar a afronta feita à filha, D. Afonso IV invadiu o território do genro, apoiado por importantes nobres castelhanos, incluindo D. Juan Manuel- pai de D. Constança, mulher de D. Pedro, o príncipe herdeiro de Portugal. O conflito luso-castelhano foi interrompido pela ameaça islâmica. Afonso XI pediu a D. Maria que solicitasse ao pai ajuda militar. D. Afonso IV enviou de Lisboa uma frota comandada pelo almirante genovês Manuel Pessanha, que fora contratado ainda no tempo de D. Dinis para reformar a marinha portuguesa. Mas o rei de Castela precisava de reforços urgentes. D. Maria foi então ter com o pai a Évora, para lhe pedir que auxiliasse o marido. D. Afonso IV fez-se rogado mas acabou por aceder. Reuniu o exército português e, à frente de mil lanças, dirigiu-se a Sevilha. Dali, no fim de Setembro, os dois reis partiram para Tarifa, no Sul da Andaluzia, junto à costa. A cidade estava cercada pelos merínidas de Marrocos, do lado do mar, e pelos mouros de Granada, do lado da montanha. Os cristãos ficaram impressionados ao ver o número dos inimigos: o cronista diz que "estavam os campos e vales e montanhas cobertas deles". Nos preparativos para a batalha ficou acordado que os castelhanos atacariam os marroquinos e os portugueses atacavam os de Granada. A 30 de Outubro, "pela hora prima" (seis da manhã), os cavaleiros de Afonso XI atravessaram a ribeira do Salado e deram início à batalha, atacando a cavalaria de Abul Hassan. Do lado da serra, D. Afonso IV, secundado pelo prior do Crato - D. Álvaro Gonçalves Pereira (pai de Nuno Álvares Pereira) -, pelo arcebispo de Braga, pelo bispo de Évora e pelo mestre de Avis, atacou os granadinos de Yusef Abdul Hagiag. A lide foi "mui danosa e mui crua e sem piedade", lê-se no Livro de Linhagens do conde D. Pedro. Pelo meio dia, entre mortos e feridos, os muçulmanos abandonaram o campo de batalha, deixando as bagagens dos reis de Fez e de Granada, incluindo o tesouro e o harém. Afonso XI convidou o sogro a escolher o que quisesse dos despojos, mas D. Afonso IV levou apenas uma cimitarra e um sobrinho do rei de Fez como cativo. Segundo o cronista Rui de Pina, o rei de Portugal respondeu ao genro que "quando de seus reinos viera em sua ajuda, por serviço de Deus e por sua honra e por defesa de sua terra, não fora com intenção dele nem os seus irem ricos, mas honrados e vitoriosos". Depois da batalha do Salada, os muçulmanos da Península acolheram-se aos muros de Granada, de onde acabaram por ser expulsos um século e meio mais tarde pelos Reis Católicos. 2009/4/7 BRANCA DIAS – Heroína Luso-Brasileira
2009/4/2 D. SEBASTIÃO “A maravilha fatal da nossa idade”Órfão de pai antes de nascer (o príncipe D. João morreu 20 dias antes do parto, em Janeiro de 1554) e abandonado pela mãe com apenas quatro meses (D. Joana de Áustria regressou a Espanha em Maio desse ano), D. Sebastião sucedeu ao avô, D. João III, quando tinha três anos. Enquanto a regência passava da avó, D. Catarina, para o tio-avô, cardeal D. Henrique, o menino cresceu educado por velhos jesuítas fanáticos que o criaram na obsessão religiosa. Mal fez 14 anos, o rei assumiu o poder. De saúde débil e fraco de espírito, sonhava apenas com batalhas, conquistas e a expansão da Fé, dedicando pouco tempo à governação de tão vasto império, profundamente convicto de que seria o capitão de Cristo numa nova cruzada contra os mouros do Norte de África. Sebastião começou a preparar a expedição contra os marroquinos da cidade de Fez. Filipe II de Espanha, seu tio, recusou participar naquilo que considerava uma loucura e adiou o casamento de Sebastião com uma das suas filhas para depois da campanha. Pôs em marcha o projecto da "jornada de África", contra a opinião avisada, mas pouco firme, da maior parte dos conselheiros - designadamente da Câmara de Lisboa. Em Junho de 1578 zarpou de Lisboa uma armada de mais de 900 navios, transportando 24 mil soldados, incluindo dois mil mercenários espanhóis, alemães e italianos. A fina flor da nobreza embarcou como se fosse para uma festa Oliveira Martins escreveu que depois do desastre foram encontradas 10 mil guitarras nas areias de Alcácer Quibir. Nem faltaram a espada e o escudo de D. Afonso Henriques, trazidos da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Na verdade, o que faltou foi a organização estratégica e táctica de toda a operação militar. A expedição chegou a Tânger a 7 de Julho e seguiu para Arzila, onde Mulei Mafamede tentou dissuadir D. Sebastião de continuar, com informações de que Mulei Moluco não queria a guerra. O rei não se deixou convencer. Iniciou a marcha pelo deserto, de Arzila para Larache, na costa, mas a certa altura tomou a direcção de Alcácer Quibir, mais para o interior. Os portugueses estavam esgotados pela caminhada e pelo calor. A seis quilómetros a noroeste da cidade encontraram as forças de Mulei Moluco: 40 mil homens, sobretudo cavalaria (do lado português havia apenas três mil cavaleiros). A incapacidade de D. Sebastião para o comando revelou-se desastrosa, apesar da bravura dos combatentes. Sucederam-se ordens e contra-ordens. O rei combateu com grande valentia. Perdida a esperança na vitória, decidiu "morrer sim, mas devagar". Viu cair a seu lado o duque de Aveiro, os condes da Vidigueira, do Redondo e de Vimioso, o barão de Alvito e os bispos de Coimbra e do Porto. Reza a lenda que, abrindo caminho à espadeirada, desapareceu. Mas a crónica da Jornada d’el-rei D. Sebastião às Partes de África descreve a sua morte depois de um mouro velho chamado Lauby lhe ter dado uma cutilada que lhe deitou abaixo a sobrancelha direita. O cadáver nunca foi encontrado. Na "Batalha dos Três Reis", como lhe chamam em Marrocos, morreram também o aliado Mulei Mafamede, afogado no rio Mocazim, e o inimigo Mulei Maluco, de doença. Mas só D. Sebastião se tomou um mito. Tinha 24 anos.. 2009/3/25 D. CARLOTA JOAQUINA, Ninfomaníaca, traidora e mulher emancipadaCarlota Joaquina casou-se com o príncipe D. João (futuro D. João VI) a 9 de Junho de 1785. Se o noivo tinha 18 anos, a noiva era uma menina de 10 (parece que esperaram até ela fazer 15 anos para consumar o casamento), que passou o resto da infância e a adolescência numa corte estranha, afastada do regaço da família.Apesar desse afastamento, a tendência para a promiscuidade adúltera pode muito bem ter sido herdada da mãe, a rainha Maria Luísa, que passou a vida a enganar o marido, Carlos IV de Espanha, ao ponto de convencer este a nomear primeiro-ministro o amante dela, Manuel Godoy. O primeiro “pecado" de Carlota Joaquina foi ter ousado fazer política num mundo de homens, e ter perdido... Perdeu na tentativa de se tornar regente no lugar do marido, na chamada “Conspiração dos Fidalgos", em 1805-1806; perdeu no projecto de se tomar rainha das colónias espanholas do Rio da Prata (actuais Argentina e Uruguai), a partir de 1808, alegando a incapacidade do pai, Carlos IV, e do irmão, Fernando VII, prisioneiros de Napoleão; perdeu, por fim, a aposta no “Portugal Velho", absolutista e contra-revolucionário, ao lado do filho D. Miguel na guerra civil. Mas a rainha ficou também na história como um exemplo de escandalosa devassidão sexual, uma mulher cujos insaciáveis apetites libidinosos se manifestavam num corpo que roçava a repugnância. Oliveira Martins retratou-a como uma "megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue Bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a natureza". A própria filha, D. Maria Teresa, dizia, temerosa: "É nossa mãe, temos de respeitá-la, mas é preferível sair do seu caminho." Laura Junot, mulher do embaixador francês que mais tarde seria invasor de Portugal, ridicularizou-a e sublinhou a sua falta de gosto. Apesar de o casamento com D. João ter durado 36 anos, a vida em comum foi curta. A partir da conspiração de 1805-06, o príncipe perdeu a confiança nela e passaram a viver separados. O ódio entre o casal chegou ao ponto de, quando o seu coche se aproximava do da sua mulher nas estradas que levavam ao Palácio de Queluz, D. João gritava, indignado, ao cocheiro: "Volta para trás! Vem aí a puta!" Dos nove filhos do casal, a maior parte dos estudiosos considera provável que o futuro D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal era mesmo de D. João. Quanto aos outros, é quase certo que um deles devia a sua paternidade ao almoxarife do paço. Dos restantes, diz-se que apresentavam notórias parecenças com vários oficiais da guarda. Muitos foram apontados como amantes de D. Carlota, desde o próprio Junot, passando pelo 6.° marquês de Marialva, pelo almirante inglês Sidney Smith, por Manuel Francisco Rodrigo Sabatini, oficial da guarda de D. Maria I- até muito mais baixo na escala social: o cocheiro da Quinta do Ramalhão, em Sintra, João dos Santos. D. João não tinha ilusões, mas, mesmo assim, insistia em manter-se informado das aventuras amorosas da mulher. Um dia desabafou: "Na vida de Carlota, a moralidade morreu..." [NS-J.Ferreira] 2009/3/18 ISABEL DE PORTUGALIsabel de Portugal era filha do rei Manuel I de Portugal e de Maria de Aragão, infanta de Espanha. Diziam-na belíssima, como prova o retrato pintado por Ticiano. Inteligente, a infanta foi educada pela famosa Beatriz Galindo, la Latina e pelo humanista valenciano Luís Vives.
O casamento fora recomendado por D. Manuel I. A 6.10.1525 firmou-se em Torres Novas o contrato. As primeiras negociações sobre o enlace entre D. Isabel e o imperador Carlos V começaram no Outono de 1522, entre D. João III, seu irmão, e a corte espanhola. O dote da imperatriz foi de 900 mil dobras de ouro castelhanas, o que era uma enorme fortuna. Em Janeiro de 1526, começaram os preparativos da partida da imperatriz Isabel de Portugal para Espanha. D. Isabel chegou a Elvas no dia 6 de Janeiro, acompanhada dos irmãos, D Luís e D. Fernando. Ao chegarem à fronteira, deram-lhe por montada uma linda "faca" branca, termo que significa cavalo pequeno, leve e magro, para maior comodidade na viagem. A viagem demorou dois meses. No dia 10 ou 11 de Março de 1526, realizou -se o casamento com os noivos lado a lado, e a cidade de Sevilha engalanou as ruas e viveu dias de grande alegria. Como alguém disse, Carlos e Isabel casaram sem se conhecer e amaram-se depois de se conhecerem. D. Isabel, além de ter um rosto de um perfeito oval, "olhos de garça", cabelos longos e loiros, com uma figura "esbelta e harmoniosa", terá percebido na lua-de-mel que a sorte a bafejara. Os noivos ficaram no Palácio do Alhambra, mas as comitivas eram tão numerosas que os familiares do lado de D. Isabel ficaram hospedados em São Jerónimo, magnífico edifício renascentista. Nestes dias de felicidade, Carlos ofereceu um cravo a Isabel, flor que na altura não era muito vulgar. E diz-se que foi por este gesto que um dos símbolos da Andaluzia e de Espanha é o "clavel". Em Dezembro, os imperadores partiram para Valladolid, onde chegaram no início do ano seguinte. Aqui, a imperatriz deu à luz, no dia 21 de Maio de 1527, o herdeiro do trono - Filipe (depois rei Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal). Sabe-se que o parto foi difícil e Isabel de Portugal sofreu muito. Isabel de Portugal tinha residência própria, independente da do marido, onde viviam quarenta damas e açafatas e mais de setenta jovens, rapazes e raparigas, alguns filhos do pessoal que lidava de perto com D. Isabel. Enquanto Carlos V estava em guerra ou a negociar tratados de paz com países ou regiões da Europa, Isabel tinha as responsabilidades de regente. O seu cargo era, como ficou escrito, "lugarteniente dcl reino de Castilla". Foi regente entre 1529 e 1532 centre 1535 e 1539. Nessa qualidade, viajou bastante. Para amenizar as saudades e para tratar de assuntos importantes do império, Carlos e Isabel escreviam-se com regularidade. Por vezes, o imperador não escrevia durante meses, a ponto de preocupar a imperatriz, que numa carta lhe "ralhou", dizendo que ao menos lhe escrevesse "todos os vinte dias". Isabel de Portugal foi novamente mãe, em 1535. Esta filha, Joana, viria a casar com o príncipe João Manuel, filho de D. João III de Portugal e de D. Catarina. Ficou viúva e à espera de um filho, que viria a ser o malogrado rei D. Sebastião, morto em Alcácer-Quibir. Quando Isabel de Portugal morreu de pós-parto, em 1539, o imperador estava ausente em Madrid e ficou muitíssimo amargurado. Refugiou-se no Mosteiro de Sisla, vestido de negro, cor que usou até ao fim dos seus dias. Rezava. E frequentemente os seus vassalos lhe viram lágrimas nos olhos. Temeu-se pela sua saúde, tal era o seu sofrimento pela ausência de Isabel. Para ter perto de si a imagem daquela que ele tanto amara, encomendou um retrato a Ticiano. Era costume fazerem-se as máscaras mortuárias dos falecidos ilustres e terá sido a partir dessa máscara de cera com as feições da imperatriz que Ticiano concebeu o retrato. Quando o imperador o viu, não o achou perfeito e quis que o mestre pintor retocasse o nariz de Isabel. E assim fez Ticiano. Aliás, pintou dois quadros quase iguais. Um desapareceu, anos mais tarde, num incêndio. Resta apenas aquele que acompanhou Carlos V quando se retirou para o Mosteiro deYuste, em 1556, e que esteve na grande exposição de Toledo, de Outubro de 2000 a Janeiro de 2001.
2009/3/6 D. João V, obcecado por freiras e viciado em afrodisíacos....
D. João V teve os cognomes de “O Magnânimo” e “O Rei-Sol Português”,e alguns historiadores recordam-no também como O Freirático.
“O Magnânimo”, dada a generosidade com que abriu mão de enormes fortunas, tanto para engrandecer a coroa como para satisfazer os seus caprichos pessoais. Além de monumentos como o Convento de Mafra e o Aqueduto das Águas Livres, que ainda hoje recordam o seu nome, gastou os proventos do Império na Guerra da Sucessão de Espanha, na batalha do Cabo Matapan contra os turcos, e na obtenção do Patriarcado para Lisboa, que incluiu a célebre embaixada ao papa Clemente XI, em 1716.
“O Rei-Sol Português”, em virtude do luxo de que se revestiu o seu reinado. Diz Veríssimo Serrão em «História de Portugal» que «era senhor de uma vasta cultura, bebida na infância com os padres Francisco da Cruz, João Seco e Luís Gonzaga, todos da Companhia de Jesus. Falava línguas, conhecia os autores clássicos e modernos, tinha boa cultura literária e científica e amava a música. Para a sua educação teria contribuído a própria mãe, que o educou e aos irmãos nas práticas religiosas e no pendor literário.» Segundo o historiador Oliveira Martins, “D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres, mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, no ninho da madre Paula”. A verdade é que nesse tempo a vocação era uma das últimas razões para as mulheres irem para freiras e as visitas aos conventos faziam parte da etiqueta social. O convívio proporcionava intimidade, os relacionamentos amorosos eram conhecidos e, desde que praticados com discrição, aceites. Era frequente um nobre "ter" a "sua" freira, com quem se correspondia, a quem visitava no convento onde se trocavam presentes - muitas vezes poemas por doces conventuais (ainda hoje têm fama a marmelada de Odivelas e o pudim da madre Paula) - e onde as celas se transformavam em alcovas. O exagero dessa prática, denunciada - com objectivos opostos - por moralistas e libertinos, tomou-se escandaloso. Odivelas era um local assiduamente frequentado pela nobreza da corte na época em que Paula se tornou freira, e não faltariam, portanto, oportunidades para D. João V e os titulares que o rodeavam se deslocarem ao local. Terá sido por esta altura que começaram os encontros entre o rei e Paula Teresa da Silva, uma vez que D. José de Bragança nasce, em Lisboa, no dia 8 de Setembro de 1720. Sobre a forma como se conheceram, existem versões sem grande credibilidade Da relação com a madre Paula uma enorme riqueza gasta para transformar uma modesta cela conventual em aposentos dignos de uma rainha. O Palácio Pimenta, ao Campo Grande, onde hoje está instalado o Museu da Cidade de Lisboa, foi mandado construir por D. João V para a mesma amante. Os relatos que corriam na corte sobre o luxo da madre Paula, as sua mobílias preciosas, as roupas e as jóias impressionaram o viajante suíço César de Saussure, que referiu a ligação do rei e da freira no livro sobre a sua visita a Portugal, em 1730. Mas D. João V teve outros filhos ilegítimos: D. António, filho de uma francesa de nome desconhecido, mas que, segundo outros historiadores, seria filho de D. Luísa Inês Antónia Machado Monteiro. Doutorou-se em Teologia e veio a ser cavaleiro da Ordem de Cristo. D. Gaspar, filho de uma religiosa, D. Madalena Máxima de Miranda (Madalena Máxima da Silva Miranda Henriques). Veio a ser arcebispo primaz de Braga. Este dois, juntamente com D. José, filho da religiosa madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva), e que exerceu o cargo de Inquisidor-mor, ficaram conhecidos pelos “Meninos de Palhavã”. A expressão deriva do facto de terem habitado no palácio do marquês de Louriçal, na zona de Palhavã, na altura arredores de Lisboa mas que hoje se situa em plena cidade (o edifício - denominado Palácio da Azambuja - é hoje a Embaixada de Espanha em Lisboa, ou "Palácio dos Meninos de Palhavã"). Receberam educação em Santa Cruz de Coimbra sob o preceptorado de Frei Gaspar da Encarnação para se fazerem religiosos
Semi-clandestinos, semi-escandalosos, os amores ilícitos de D. João V produziram, além dos "Meninos de Palhavã", D. Maria Rita, que não foi reconhecida, e acabou por ir para. .. freira. Era filha de D. Luísa Clara de Portugal, que passou à história com o cognome da sua casa: a Flor da Murta.
Madre Paula sobreviveu 35 anos ao amante, sempre tratada com a maior consideração. No século XX, o convento de Odivelas foi transformado em colégio feminino, para as filhas de oficiais das Forças Armadas
A obsessão de D. João V pelo sexo levou-o ao uso descontrolado de afrodisíacos, designadamente cantáridas, que lhe minaram a saúde e apressaram a morte. O Rei faleceu em 31 de Julho de 1750 após quase meio século de governo. Jaz no Panteão dos Braganças, ao lado da esposa, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.
2009/3/2 CASA MUSEU DE CAMILO – Seide (Famalicão)2009/1/23 D. FERNANDO, O INFANTE QUE FOI “SANTO” À FORÇA
No meu livro da 4ª classe aprendi que “ D. Fernando pediu insistentemente que não se entregasse a praça de Ceuta, como os moiros impunham por condição do seu resgate, dando assim um belo exemplo de amor à Pátria”. Anos mais tarde cheguei à conclusão que tinha andado iludido. Na realidade, o infante pediu repetidamente que lhe salvassem a vida - foi "santo' à força. Vejamos os factos: Em 1437 D. Fernando participa numa expedição militar ao Norte de África, comandada pelo irmão mais velho o Infante D. Henrique, mas com o voto desfavorável dos outros infantes, Pedro, Duque de Coimbra e João, Infante de Portugal. A campanha revelou-se um desastre e, para evitar a chacina total dos portugueses, estabelece-se uma rendição pela qual as forças portuguesas se retiram, deixando o infante como penhor da devolução de Ceuta (conquistada pelos portugueses em 1415). De regresso a Portugal, D. Henrique deu conta ao rei do desaire e do compromisso que assumira. Perante a gravidade da situação - entregar Ceuta, significava renunciar à primeira conquista em África - D. Duarte decidiu convocar a assembleia mais importante do reino. Nas Cortes reunidas em Leiria, os representantes do clero, da nobreza e dos concelhos começaram por ouvir a leitura de uma carta enviada de Arzila, para onde D. Fernando tinha sido levado. Na mensagem, o infante dirigia-se ao rei pedindo-lhe que cumprisse o acordo assumido por D. Henrique: que entregasse Ceuta e o libertasse. Os infantes D. Pedro (futuro regente do reino) e D. João, com alguns fidalgos e a maior parte dos procuradores dos concelhos (o "povo") manifestaram-se pela entrega de Ceuta e pela libertação de D. Fernando. Outro grupo manifestou-se a favor do resgate do infante por outros meios, diplomáticos e militares, incluindo nova expedição a Marrocos que obrigasse os mouros a libertá-lo; não punha de lado, no entanto, a hipótese de entregar Ceuta. O arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra (bisneto de D. Pedro e D. Inês), apoiado pela maioria do clero, opôs-se à entrega de Ceuta sem licença do Papa, uma vez que se tratava de terra cristã que não deveria voltar a ser muçulmana. A maioria dos nobres, encabeçada pelo conde de Arraiolos (depois duque de Bragança), recusou em definitivo entregar Ceuta. O infante D. Henrique não foi às Cortes de Leiria. Os participantes apontaram-lhe responsabilidades pelo falhanço de Tânger e censuraram a sua inabilidade como chefe militar. Apesar disso, encontrou-se a sós com o rei e deu-lhe o seu parecer: Ceuta não devia ser entregue em nenhum caso. D. Duarte morreu de peste meses depois, em Setembro de 1438, com 46 anos. No seu testamento deixou a vontade de libertar o irmão, ainda que em troca de Ceuta. Fernando foi entretanto levado para Fez, sendo tratado ora com todas as honras, ora como um prisioneiro de baixa condição (sobretudo depois de uma tentativa de evasão gorada, patrocinada por Portugal). Daí escreve ao seu irmão D. Pedro, então regente do reino, um apelo patético, pedindo a sua libertação a troco de Ceuta. O infante D. Pedro, regente em nome do menino D. Afonso V, tentou negociar a sua libertação. A correspondência com D. Fernando manteve-se até, pelo menos, 1442 - data da última carta que mandou a D. Pedro. "Sempre pensei que antes da morte vos veria", escreveu. Morreu de disenteria, em Junho ou Julho de 1443, com 40 anos. Quando D. Afonso V conquistou finalmente Tânger, em 1471, os restos mortais de D. Fernando foram trasladados para o mosteiro da Batalha, onde hoje repousam ao lado dos pais e irmãos, na Capela do Fundador. |
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