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2009/11/18 ANTÓNIA RODRIGUESNatural da Freguesia da Apresentação, em Aveiro, Antónia Rodrigues, também conhecida como Antónia de Aveiro, era filha de Simão Rodrigues, marinheiro, e de Leonor Dias. Seu pai dedicava-se à vida marítima e, ao que parece, fez algumas viagens à Terra Nova, quando da barra de Aveiro saía anualmente para aquelas paragens um grande número de embarcações para a pesca do bacalhau. A mãe tratava dos trabalhos domésticos, sempre pesados e sempre complicados, porque era grande a sua prole. Os trabalhos marítimos, as doenças e não poucas contrariedades acabrunharam demasiadamente Simão Rodrigues que, rodeado de filhos e de miséria, se viu obrigado a mandar esta filha para Lisboa, onde haveria de viver com uma irmã, cujo nome se ignora, mas que lá estava casada e em melhores circunstâncias. Pouco depois de haver chegado a Lisboa, manifestou um génio altivo e sempre impróprio da sua idade e da sua humilde posição. Repugnavam-lhe os trabalhos domésticos e recusava-se a executar os que eram próprios do seu sexo. Em virtude da sua índole livre e insubmissa, tanto a sua irmã como o cunhado, admoestavam-na, repreendiam-na, chegando mesmo a ameaçá-la e espancá-la. O procedimento daqueles cônjuges não abateu o génio irascível de Antónia Rodrigues, que fugia de casa com muita frequência. Decidiu então, em 1593, radicalizar a sua forma de vida, disfarçou-se de homem, adoptou o nome de António Rodrigues e conseguiu emprego na tripulação de um navio carregado de trigo, que zarpou para a possessão portuguesa de Mazagão, em Marrocos. Ela própria cortou os seus cabelos e, vestida com as roupas que havia comprado, apresentou-se ao capitão da caravela, pedindo-lhe que admitisse António Rodrigues, como simples grumete e sem remuneração, além do frugal sustento, que durante a viagem poderia receber como qualquer dos seus companheiros. O capitão estimava o grumete e, tanto na viagem como em terra, afirmava que António Rodrigues viria a ser um grande náutico, que muito havia de honrar a marinha portuguesa. Mas o grumete não quis voltar na mesma caravela e, desejoso de novas e variadas empresas, despediu-se do capitão, que manifestou por isso um íntimo desgosto. Sem incidente notável, entrou a caravela em Mazagão. O jovem grumete tratou de despedir-se do serviço marítimo. Nem todos os escritores estão de acordo quanto aos motivos que levaram o jovem grumete a tomar esta decisão. Ou o próprio capitão despediu o grumete, por já não precisar do serviço deste; ou este se deu por despedido, por querer entrar em aventuras, seguindo outro modo de vida. Posteriormente, dirigiu-se ao governador militar da praça e tratou de alistar-se, como simples soldado. O governador aceitou essa voluntária proposta, admirando a beleza e a elegância daquele jovem aveirense. Mazagão era uma praça do império de Marrocos, na Província de Duquela, distante dez quilómetros de Azamor. Pertenceu, desde 1502, aos portugueses, que logo a fortificaram e a fizeram ocupar militarmente. Em 1769, foi abandonada aos mouros, depois de lhe serem destruídas as fortalezas. Em 1562, fizeram ali os mouros diversas tentativas, para se apossarem da praça, mas num encontro foram vergonhosamente repelidos. António Rodrigues, agora como soldado, mostrava-se sempre intrépido nos combates e hábil no manejo das armas, pelo que chegou a ser incumbido do comando de algumas tropas em diversos recontros. Um dia soube que os mouros pretendiam fazer uma sortida de noite aos campos mais próximos e destruir as searas, que então estavam muito abundantes e quase maduras. Animou-se pelo ensejo de alcançar maior glória e pediu ao governador da praça que lhe entregasse um troço de tropas, para, sob o seu comando, fazer uma derrota completa nas hostes mauritanas. O governador acedeu ao pedido, esperando que António Rodrigues cumpriria com valor o que prometera por dedicação. Quando os mouros menos os esperavam, aparece o jovem militar com a sua tropa e com tanta valentia se houveram os portugueses, e tão bem comandados foram, que os invasores tiveram de fugir feridos e envergonhados. António Rodrigues entrou em Mazagão, ouvindo as aclamações de vitória e recebendo os maiores elogios. Por este e já por outros feitos foi elevado a oficial, sendo então integrado à cavalaria da praça. Pelas suas seguidas e brilhantes actuações militares, ficou conhecido como o terror dos mouros e ganhou a estima e o respeito de todos.
Não poucas damas se apaixonaram por António Rodrigues e ele facilmente deixava alimentar essas paixões, para assim poder mais facilmente encobrir a verdade do seu sexo. Entre aquelas damas, conta-se principalmente D. Beatriz de Meneses, filha de D. Diogo de Mendonça, um dos principais fidalgos, dos que então viviam em Mazagão. E tanto se apaixonou que adoeceu gravemente, chegando o pai, que muito a estimava, a recear que ela sucumbisse. D. Diogo entendeu-se com o governador da praça, insinuando-lhe que obrigasse António Rodrigues a desposar D. Beatriz. Chamado o jovem oficial à presença do governador e tendo ouvido a proposta do casamento, corou, tremeu e perdeu completamente a coragem. Depois de muita insistência por parte do governador, Antónia Rodrigues pediu para que não a castigassem; e, entre soluços, declarou que não era homem. Contou então toda a sua história e pediu perdão, por haver vivido com tal disfarce. O governador fez logo espalhar por toda a praça aquela notícia. Antónia Rodrigues vestiu os trajes do seu verdadeiro sexo e foi levada pelas ruas de Mazagão, ouvindo as aclamações do povo, que lhe dava o epíteto de cavaleira aveirense. Logo que se soube o verdadeiro sexo de Antónia Rodrigues, como era formosa e inteligente, não faltaram pretendentes que a desejassem para esposa. Entre eles escolheu Antónia um brioso oficial, cujo nome se ignora. O seu casamento foi celebrado com grandes festejos, assistindo ao acto as pessoas de posição mais elevada. Quando Antónia Rodrigues tinha trinta e cinco anos, voltou para Portugal, em companhia de seu marido e de um filho, que ainda era criança. Pouco depois ficou viúva. El-rei D. Filipe, II de Portugal e III de Espanha, achava-se então em Lisboa e desejou muito conhecê-la. Efectivamente, foi-lhe apresentada Antónia Rodrigues. O monarca muito admirou e bem recebeu a célebre heroína, que a recompensou pelos serviços prestados, conferindo-lhe diversas condecorações reais tanto a ela como a sua família. A partir de então a sua vida ficou envolta em mistério e pouco se sabe sobre seus dados familiares. Não se sabe onde nem em que data faleceu esta heroína aveirense, assim como nada se sabe a respeito do filho, nem se este deixou descendência. É possível que a mãe e o filho houvessem falecido em Madrid, onde então era a Corte.
(Pesquisa e adaptação a partir de vários sites da internet) 2009/11/8 FERNÃO DE MAGALHÃES E A VIAGEM DE CIRCUM-NAVEGAÇÃOFidalgo da pequena nobreza, Fernão de Magalhães nasceu no Norte de Portugal (em Trás-os-Montes, segundo alguns historiadores, no Porto, segundo outros). Veio jovem para Lisboa e embarcou aos 25 anos na armada do vice-rei D. Francisco de Almeida, a caminho da índia, em 1505. Percorreu os pontos principais do império do Oriente e participou em acontecimentos cruciais da Expansão, como a batalha naval de Diu, em 1509, e a conquista de Goa, em 1510. Na índia conheceu Francisco Serrão, futuro feitor nas ilhas Molucas, e começou a interessar-se pelos locais de origem das especiarias que atraíram os portugueses ao Oriente. De regresso a Lisboa, em 1513, partiu para Marrocos sob o comando do duque de Bragança e distinguiu-se na conquista de Azamor, a ponto de ser nomeado quadrilheiro-mor. Foi nesse cargo que caiu em desgraça: uma das suas funções era repartir o saque, e foi acusado junto do rei de o ter feito de forma pouco transparente. D. Manuel recusou-lhe por duas vezes o pedido de aumento da tença. À segunda recusa, Magalhães abandonou a corte e foi propor os seus serviços ao rei de Espanha.
Em 1517, Fernão de Magalhães chegou a Sevilha, onde conheceu dois poderosos elementos da corte espanhola: Juan de Aranda, feitor da Casa da Contratação, e o bispo de Burgos, membro do Conselho das índias. Magalhães convenceu-os de que era capaz de realizar o projecto em que trabalhava há anos, a descoberta do caminho para as ilhas produtoras de especiarias, as Molucas, navegando para ocidente, de maneira a atingi-las por mares que, ao abrigo do Tratado de Tordesilhas de 1494, não estivessem reservados a Portugal. Aranda e o bispo puseram Magalhães em contacto com o rei Carlos I de Espanha (que em 1519 se tornou também imperador Carlos V da Alemanha). Depois de uma negociação regateada acordaram nos termos da expedição. Magalhães cobrava um soldo de 50 mil maravedis e, ao comando de uma esquadra de cinco naus (Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago), com uma tripulação de 265 homens, ficava incumbido de tomar posse das Molucas para a coroa espanhola. A primeira circum-navegação da Terra começou em Setembro de 1519. De San Lúcar de Barrameda, os navios rumaram às Canárias e dali para o Brasil. Chegaram à baía do Rio de Janeiro em Dezembro e seguiram a costa para sul. Em Fevereiro de 1520 atingiram a foz do Rio da Prata e a 31 de Março estavam na baía de S. Julião. Magalhães decidiu passar ali o Inverno. Durante os meses seguintes esmagou uma revolta e perdeu duas naus, a Santiago naufragou e a San Antonio voltou a Espanha na sequência de um motim. Cinco meses depois a esquadra fez-se ao mar a 18 de Outubro, já reduzida a três navios. A 21, as naus internaram-se num estreito fustigado por violentas tempestades. Só descobriram a saída em meados de Novembro. Magalhães baptizou-o “Estreito de Todos os Santos", porque passara nele o dia de Todos-os-Santos. Ao saírem do estreito, os marinheiros tinham deixado o Atlântico e navegavam noutro oceano, a que chamaram Pacifico, por contraste com os temporais que antes tinham encontrado. Mais tarde, Carlos V determinou que a passagem do Atlântico para o Pacifico se chamasse Estreito de Magalhães. A travessia do Pacífico dizimou a tripulação, assolada pela fome, a sede e o escorbuto. Em Março de 1521, Magalhães chegou a um arquipélago a que chamou de S. Lázaro, mais tarde denominado das Filipinas, em honra de Filipe II. Aportou a Cebu, onde estabeleceu relações comerciais com o rei local. As coisas não correram tão bem com o rei da ilha vizinha de Mactan. Magalhães desembarcou ali com um grupo armado, disposto a obrigá-lo a submeter-se, e foi abatido pelos indígenas, em Abril de 1521. Escolhidos para chefiar a expedição, Duarte Barbosa e João Serrão quiseram vingar Magalhães. Barbosa foi morto, Serrão preso, e os sobreviventes fizeram-se ao largo. Juan Sebastian de Elcano tornou-se o novo comandante. A bordo da Victoria, Elcano completou a circum-navegação iniciada três anos antes por Magalhães: chegou a San Lúcar de Barrameda em Setembro de 1522. Dos 265 homens que tinham partido, voltaram 18.
O facto de Fernão de Magalhães ter concretizado a sua odisseia ao serviço de um rei espanhol não lhe retira o mérito. Pelo contrário. É admirável que tenha conseguido montar uma expedição desta envergadura num país que não era o dele. Segundo Gonçalves Neves, “Fernão de Magalhães representa um grupo de homens que saíram de Portugal e projectaram o seu saber para fora das fronteiras”. Nunca deixou de ser português. Foi graças a ele que Portugal esteve no início da globalização.
[in NS-J. Ferreira, RTP]
2009/10/17 FORTALEZA DE MAZAGÃO - MARROCOSDando continuidade à promessa de referenciar, aqui no meu espaço, alguns apontamentos sobre as 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo, cabe hoje a vez da Fortaleza de Mazagão em Marrocos. Mazagão foi uma possessão portuguesa em Marrocos, no norte da África, correspondendo à actual cidade de El Jadida, 90 km para sudoeste de Casablanca.
A reedificação da fortaleza foi encomendada aos maiores arquitectos italianos e espanhóis, numa altura em que se transitava da guerra com armas de arremesso para as armas de fogo. Assim se justifica a inclinação das muralhas, que deste modo repelem impacto das armas de fogo, assim como o alargamento das ameias, para a colocação das colubrinas, canhões e demais dispositivos. No ano de 1541, no reinado de João III de Portugal foram demolidas as estruturas defensivas existentes, que estavam ultrapassadas, sendo substituídas por outras em molde renascentista, segundo se pensa consoante o plano de Diogo de Torralva e possivelmente outros engenheiros de renome como João de Castilho. A prova da sua inexpugnabilidade foi a resistência a um forte cerco islâmico em 1562.
(in Wikipedia)
2009/10/6 RAINHA D. LEONOR, A FUNDADORA DAS MISERICÓRIDAS
Quando morreu, a 17 de Novembro de 1525, a rainha D. Leonor era uma das pessoas mais ricas de Portugal. Conheceu de perto quatro reis: o tio D. Afonso V, o primo e marido D. João II, o irmão D. Manuel I e o sobrinho D. João III. Foi responsável pela maior rede de assistência social de que há memória em Portugal - as misericórdias - ao criar, em 1498, a primeira delas, a Misericórdia de Lisboa. Por ironia da história, a mulher que fundou a mais importante obra de caridade do país foi acusada pelo historiador Anselmo Braamcamp Freire de ter cometido uma "feíssima falta de caridade": negou-se a acompanhar os últimos momentos do marido, que morreu aos 40 anos, com suspeitas de ter sido envenenado.
D. Leonor nasceu na mais alta nobreza de Portugal. Era filha do infante D. Fernando e de D. Brites (ou Beatriz), neta paterna do rei D. Duarte e neta materna do primeiro duque de Bragança, D. Afonso. Muito cedo começou a acumular uma fortuna pessoal fabulosa. Aos 12 anos casou com o primo, o príncipe herdeiro D. João, mas só aos 15 foi assinado o Contrato matrimonial. Nessa altura, em Setembro de 1473, o irmão D. Diogo (uma vez que o pai já tinha morrido) deu-lhe de dote a vila e fortaleza de Lagos, avaliada em 10 mil cruzados de ouro, além das jóias e do enxoval que lhe foram dados pela mãe. O sogro e tio D. Afonso V atribuiu-lhe rendas em Lisboa, Sintra, Torres Vedras e Óbidos. Ainda na qualidade de princesa foi-lhe doada a vila de Sintra e, pouco depois de subir ao trono, em 1481, o marido doou-lhe, "sem no-lo ela pedir, nem outrem por ela", Aldeia Galega, Aldeia Gavinha, Alenquer, Alvaiázere, Óbidos, Torres Novas e Torres Vedras. Em 1484, a política nacional e a vida familiar de D. Leonor sofreram um choque: D. João II, que no ano anterior mandara executar por traição o duque de Bragança (primo de ambos), esmaga uma nova conspiração de nobres, assassinando pelas próprias mãos a golpes de punhal o seu cunhado D. Diogo, duque de Viseu. A rainha ficou destroçada com a morte do irmão. Durante muito tempo viveu no temor de que a vingança do marido fosse extensiva ao seu outro irmão, D. Manuel, duque de Beja. Este não se poupou a esforços para garantir as boas graças de D. João II e ofereceu à rainha 100 arráteis de açúcar da Madeira, por ano. A morte do filho D. Afonso - o único que chegou à idade adulta; tinha tido outro que morrera à nascença -, na sequência da queda de um cavalo, em Julho de 1491, foi outro abalo para D. Leonor. O príncipe herdeiro tinha casado no ano anterior com uma filha dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e era a esperança de uma Península Ibérica unificada sob um rei português. A mágoa pela perda do filho tornou-se mais dolorosa com a tentativa de D. João II de legitimar um bastardo, D. Jorge, e fazer dele o herdeiro da coroa. D. Leonor opôs-se, manobrou - e conseguiu manter o seu irmão D. Manuel na primeira linha da sucessão. A vida conjugal do par real não resistiu ao litígio. Quando D. João II, já doente, foi para o Algarve a conselho dos médicos, a rainha não o acompanhou. E quando o rei agonizou, em Alvor, em Outubro de 1495, recusou-se a ir ter com ele e a assistir à sua morte.
Viúva aos 37 anos, D. Leonor foi alvo de todas as atenções por parte do novo rei, D. Manuel I, ciente de que devia a coroa - e talvez até a vida - à irmã. Além de acrescentar com novas terras e rendas o seu património pessoal, mostrou o apreço em que a tinha ao nomeá-la regente durante a viagem que fez a Castela em 1498. Foi nesse ano e em nome do irmão que D. Leonor criou, com o apoio do seu confessor, frei Miguel Contreiras, e de D. Jorge da Costa, o cardeal Alpedrinha, a primeira Misericórdia portuguesa. Outras se seguiram em todo o reino, sempre de acordo com "compromissos" decalcados do original: a prática das "14 obras de Misericórdia", tanto espirituais como corporais. Morreu em 1525, com 67 anos, no palácio de Xabregas, e está sepultada no Convento da Madre de Deus, em Lisboa.
(J. Ferreira - in NS de 22-11-2008)
2009/9/30 D. MIGUEL, REI ABSOLUTO (ACLAMADO COMO SALVADOR DA PÁTRIA, ENCHEU AS PRISÕES E ALIMENTOU AS FORCAS)A chegada de D. Miguel a Lisboa, no dia 22 de Fevereiro de 1828, regressado de um exílio de quatro anos, foi uma festa que descambou numa orgia de violência. Do cais de Belém, onde desembarcou da fragata Pérgola, até ao palácio, ''foi um triunfo: um trovão de vivas, um desespero de gritos, um dilúvio de flores, bandeiras, colchas, foguetes em girândolas!", descreve Oliveira Martins. O infante, de 25 anos, garboso na farda enfeitada com penachos e galões, era para o povo "o arcanjo S. Miguel". Mas logo nesse dia, bandos de populares armados de cacetes começaram a percorrer as ruas à procura de liberais para os provocar e agredir. Berravam morras aos "malhados" (como chamavam aos defensores do regime constitucional) e à "canalha pedreiral" (os pedreiros-livres, isto é, a Maçonaria). Os seus apoiantes cantavam: "O rei chegou, o rei chegou! E em Belém desembarcou; Na barraca [palácio das Cortes] não entrou E o papel [Carta Constitucional] não assinou! C'o papel o cu limpou!" Era só o princípio. Nos anos que se seguiram, Portugal foi palco de uma repressão feroz contra todos aqueles que os caceteiros miguelistas acusavam de partidários do liberalismo instaurado pela revolução de 1820. O infante partira para o Brasil com a família quando tinha apenas cinco anos. Os tumultos de Fevereiro de 1821, no Rio de Janeiro - em que viu o pai, D. João VI, ser obrigado a jurar a sua adesão à revolução portuguesa -, traumatizaram D. Miguel, então com 18 anos. Enquanto o irmão mais velho, D. Pedro, ficou no Brasil e abraçou a causa liberal, D. Miguel voltou com os pais para Lisboa e tornou-se o chefe do partido absolutista. Em 1824 foi desterrado para Viena de Áustria, depois do fracasso do golpe da Abrilada, que tentara derrubar o governo de D. João VI. O rei morreu dois anos depois, sucedendo-lhe D. Pedro, imperador do Brasil. Conhecedor dos "anticorpos" que contra ele existiam em Portugal por ter sido o principal responsável pela independência brasileira, D. Pedro IV outorgou a Carta Constitucional e de seguida abdicou a favor da filha, D. Maria II, uma menina de oito anos. Numa tentativa de reconciliar os portugueses divididos entre liberais e absolutistas, perdoou "os desatinos do mano Miguel", nomeou-o lugar-tenente e combinou o seu casamento com D. Maria II. Em troca, D. Miguel jurou aderir ao regime constitucional. Entusiasmado com a recepção apoteótica em Lisboa, D. Miguel, sempre instigado pela mãe, D. Carlota Joaquina, renegou o juramento que fizera da Carta Constitucional e, em Julho de 1828, foi aclamado rei absoluto pelas Cortes reunidas à maneira da Idade Média: clero, nobreza e povo. As represálias subiram de tom. O pretexto foi a conspiração dos Divodignos - uma associação de estudantes revolucionários da Universidade de Coimbra -, responsável pelo assassínio de professores miguelistas. As forcas do Cais do Sodré, em Lisboa, passaram a fazer parte do imaginário nacional. Entre 1828 e 1834 houve, segundo Oliveira Martins, 115 enforcamentos, a esmagadora maioria por motivos políticos. Nas prisões, sobretudo do Limoeiro, em Lisboa, e de S. Julião da Barra, em Oeiras, apodreceram dezenas de milhares de presos políticos (Oliveira Martins fala em 26 700), entre eles Borges Carneiro, um dos líderes da revolução de 1820, e o antigo primeiro-ministro conde de Subserra, absolutista moderado.
A violência do regime levou à emigração, por razões políticas, de muitos milhares de portugueses (Oliveira Martins conta 13 700). Em 1831, D. Pedro abdicou da coroa do Brasil, decidido a fazer da filha rainha constitucional de Portugal. Formou um exército composto por emigrados portugueses e por mercenários recrutados em França e Inglaterra e iniciou a Guerra Civil (1832-1834). Derrotado, D. Miguel assinou a Convenção de Évora Monte e partiu para o exílio, a 27 de Maio de 1834. Desta vez não regressou: morreu em Brombach, na Alemanha, com 64 anos.
(José Ferreira in NS)
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